Cardinal Bertone Interview

The Sanctuary of Fátima publishes a journal entitled Fatima XXI. It is a very nicely arranged journal with many interesting articles.

For my research on the third part of the secret, I found an interview between the Portuguese journalist Aura Miguel and Cardinal Bertone entitled Fátima: A Message for the Church, a Call to Community and to Humanity. I thought it was a very interesting article. While lengthy, I have excised the parts wherein Aura Miguel and Bertone spoke on the topic of the third part of the secret.

I leave the interview in the Portuguese language. If anyone feels up to translate it, please contact me. Meanwhile, we jump in media res….

 

Fátima: Uma Mensagem para a Igreja, um Apelo à Comunidade e à Humanidade

Tarcisio Bertone entrevistado por Aura Miguel[1]

A.M. E o que mais o impressiona na mensagem?

Card. B.: È a oração e a penitência, sem dúvida. Mas é também, e sobretudo, a extrema proximidade de Nossa Senhora ao povo cristão e à Igreja; é esta presença de Maria, uma presença que se revela num acompanhamento muito terno, desde que somos crianças – vemo-lo com os pastorinhos, como Ela se revela e se mostra especialmente aos mais pequenos. Mas não só, porque depois também acompanha os cristãos, é forte e ajuda-nos, como num campo de batalha e depois também como a invocava frequentemente o beato João XXIII (a entrevista teve lugar antes da canonização de João XXIII], auxilium episcoporum, auxilio dos bispos…

A.M.: Ao Cardeal Bertone foi confiada a revelação da terceira parte do segredo. Como viveu esta aventura?

Card. B.: Foi uma maneira peculiar de me aproximar do mistério de Fátima, porque fui encarregado de estudar o processo para a publicação dos escritos da Irmã Lúcia que se referiam à terceira parte do segredo e de retirar do arquivo secreto do então Santo Oficio – da Congregação para a Doutrina da Fé – este preciosíssimo manuscrito da Irmã Lúcia, sobretudo o famoso envelope…

A. M.: Ainda se lembra como foi?…

Card. B.: O envelope tinha quatro páginas guardadas nesse cofre, que estava fechado e cujas chaves as tinham o Prefeito, o Secretário e o Arquivista da Congregação. Três chaves à moda antiga para abrir o cofre onde estava guardado o envelope com a terceira parte do segredo. Nessa altura, eu era Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé…

A.M. O senhor foi acompanhado dos outros, com as três chaves?

Card. B.: Sim, abrimos com as três chaves e depois comecei a estudar esses escritos. A motivação, come sabemos, era a beatificação de Jacinta e Francisco, mas o Papa (João Paulo II) não achava oportuno revelar a terceira parte do segredo durante o Ano Santo e a beatificação dos dois pastorinhos. Então, essa decisão foi tomada de forma colegial, numa reunião com o cardeal Ratzinger e em que eu próprio também estive presente. Além disso, fiquei profunda e intimamente feliz e, ao mesmo tempo, perturbado quando me encarregaram de me encontrar com a Irmã Lúcia. Então, o Santo Padre João Paulo II escreveu uma carta muito bela à Irmã Lúcia, onde lhe dizia: “encarreguei expressamente para falar consigo S. Exc. Mons. Tarcisio Bertone. Fale abertamente e sinceramente com Mons. Bertone, porque, depois, ele referir-me-á diretamente todas as suas respostas”.

A.M.: Então, Vossa Eminencia falou com João Paulo II sobre o segredo…

Card. B.: Claro que falámos sobre o segredo que, aliás – como sabemos –, o Papa João Paulo II já conhecia. Só que ainda não o tinha ligado intimamente ao seu coração, nem o tinha integrado no mosaico da sua vida. É certo que, naquele ano, depois de ter pegado no envelope e no manuscrito da Irmã Lúcia, como diz o evangelista Lucas, “depois de ter meditado profundamente no seu coração” a terceira parte do segredo, vislumbrou a ligação única, particular e peculiar entre a sua vida, o segredo e Nossa Senhora de Fátima.

A.M.: Mas o Papa Joao Paulo II falou de tudo isto com Vossa Eminência? Ele considerava-se um miraculado de Fátima?

Card. B.: Certamente que se considerava um miraculado de Nossa Senhora! E a circunstância de o atentado, do famoso e terrível atentado, ter acontecido a 13 de maio de 1981 criou uma relação direta entre este terrível facto, o segredo de Fátima e Nossa Senhora. E sabemos bem que o próprio Papa interpretou o facto e a sua salvação milagrosa como se uma mão materna tivesse desviado a bala disparada contre ele. E há dois elementos que ajudam a confirmar estes factos, esta interpretação de João Paulo II e que depois foi também a interpretação teológica do comentário feito pelo cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde viria a ser Papa com o nome de Bento XVI. O primeiro elemento é que o Papa entregou a famosa bala ao bispo de Leiria para a encastrar na coroa de Nossa Senhora e o segundo elemento é o testemunho impressionante e comovente feito por Mons. Stanislaw Dziwisz, então secretário do Papa, atual cardeal arcebispo de Cracóvia. Ele contou como, no momento em que se aproximava da morte, João Paulo II, durante a longa operação na clínica Gemelli, quando já não dava sinais de recuperação, surpreendentemente, regressou à vida, através de um toque miraculoso da Virgem. É certo que o Papa, nesse atentado, não foi morto, mas não o foi – como bem interpretou, então, o cardeal Ratzinger – devido à força das orações e da unânime intercessão do povo cristão.

A.M. Eminencia, para João Paulo II era claro: porém, quis uma confirmação por parte da Irmã Lúcia e, por isso, o Sr. Cardeal visitou-a. Como recorda esta relação?

Card. B.: O Papa quis uma interpretação da Irmã Lúcia, apesar da Irmã Lúcia ter sublinhado: “eu conto os factos, transmito aquilo que recebi, mas a interpretação das mensagens e dos factos compete ao Papa”. A Irmã Lúcia não quis dar uma interpretação, nem uma explicação da terceira parte do segredo, disse apenas que seria fiel na transmissão da mensagem.

Encontrei na Irmã Lúcia uma frescura tão límpida da sua alma, com uma grande alegria e capacidade de comunicação! Acolhia-me sempre contente, especialmente, depois de ter lido a carta do Papa e de ter pegado com as suas mãos nas quatro páginas onde ela tinha escrito a terceira parte do segredo…

A.M. Pegou na sua própria carta…

Card. B.: Sim, era o envelope e a carta onde ela tinha escrito o segredo. Tocou nela e disse: “é mesmo esta; é a minha carta e é a minha letra!” – isto apesar de, já nessa altura e devido à sua idade avançada ter fraca visão e recorrer a uma lupa.

Possuía uma inteligência vivaz, confirmada aliás pela Superiora, a Irmã Celina, e pelas irmãs da comunidade; todas testemunham que a Irmã Lúcia cintilava e dava vibração, alegria e esperança à comunidade. Além disso, possuía uma graça, um dom sobrenatural…

A. M.: Os seus olhos tinham visto Nossa Senhora!

Card. B.: …Tinham visto Nossa Senhora e ela tinha no seu caráter, no seu DNA, uma alegria reveladora de grande capacidade de relação. Ao mesmo tempo, também sabia sacudir os que vinham fazer-lhe perguntas inoportunas sobre o segredo! Ela nunca se deixou enganar, apesar de terem saído muitas invenções sobre esses assuntos.

A.M. O Senhor Cardeal encontrou-a várias vezes. Qual a importância desses encontros?

Card. B.: Sim, encontrei-a várias vezes, continuámos a conversar e a comentar sobre a vida da Igreja, sobre a oração de intercessão pela Igreja e também sobre as suas reações quando soube do atentado ao Papa, etc.

Para mim, a Irmã Lúcia era o sinal de uma proteção permanente, de uma intercessão permanente pelo Papa e por mim próprio. A importância dos encontros que tive com a Irmã Lúcia está relacionada com muitos aspetos: com a afirmação da autenticidade da mensagem; com a convergência das interpretações da mensagem (ainda que não lhe coubesse a ela interpretar); e também com a segurança de então termos uma pessoa – digamos, uma vidente de Nossa Senhora – que continuava a interceder e que, além disso, teve outras aparições de Nossa Senhora, como sabemos, ainda que misteriosas e mantidas em segredo.

A. M.: No convento?

Card B.: Na sua vida do convento. Por isso, para ela não tinha sido a última aparição.

[…]

A. M.: Depois da revelação do segredo continua a haver opiniões divergentes: uns dizem que o principal já se sabe e que a mensagem passou à história; outros, no entanto, acham que ainda há coisas por revelar… Que conselhos dá a quem ainda não está em paz sobre este assunto?

Card. B.: Infelizmente muita gente deixa-se impressionar por certos mestres que não são assim tão bons. No entanto, é saudável não estar em paz no que se refere à aplicação da mensagem e dos apelos de Fátima, isso sim! É bom viver sempre estimulado pelos apelos da mensagem à oração e à penitência. Além disso, bem sabemos que não cessou a luta entre o bem e o mal, que não cessaram as perseguições à Igreja, que, infelizmente, não cessaram as guerras – apesar de não haver guerra a nível mundial, planetário continua a haver dezenas, senão centenas, de guerras locais, atrozes, como vemos, com tantos refugiados que chegam às portas da Europa, escapando de guerras e de perseguições, muitos deles provenientes de países de maioria cristã.

Por isso, a mensagem tem uma perene atualidade, é sempre um alerta, um aviso para continuar na oração e na penitência, porque o triunfo do Imaculado Coração de Maria ainda não se concluiu. Além disso, também há um facto concreto: não existem outros escritos da Irmã Lúcia sobre a terceira parte do segredo, é inútil continuar a inventar mais revelações. A carta da Irmã Lúcia, o seu envelope e a autenticação da própria vidente são claríssimos. Duvidar disto seria duvidar da Irmã Lúcia (não de Mons. Bertone, mas da Irmã Lúcia). Por isso, há que respeitar a Irmã Lúcia e respeitar tudo o que ela nos transmitiu e deixou e que a Igreja, aliás, com toda a sua autoridade suprema e com a chancela do Papa e do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, declarou e confirmou.

[…]


[1] Revista Fatima XXI. 13 Maio, 2014, 93-103. The section herein given is from pages 95-98, 101.